segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Arte de Se Fazer Música de Verdade

Como uma dupla sertaneja conquistou o meu coração

Ainda existem pessoas que tenham nascido com outros olhos. Olhos com uma visão de um mundo que ainda pode ser melhor, mesmo que em um pedacinho de terra. Uma visão de que existem grandes paixões, e não a banalização do sexo, que está presente diariamente em músicas repetitivas nas rádios, em comerciais de televisão, na pessoa que está conversando logo ali, próxima a você. Ainda existem pessoas de verdade.

Chamam de louco quem ainda gosta de músicas de amor. Pois bem, sou louca então. Não é muito agradável escutar por aí músicas que não exprimem sentimentos de verdade. Músicas que são feitas somente para tocar massivamente e vender.

Então, chegamos à linha tênue. A música sertaneja atual é basicamente feita disso. Bar, beber, zoar, comer, cheia de cacófatos e showzinhos à parte. Então, é lógico, rola um pré-conceito. Eu, mesmo tendo crescido em meio à música de raiz, ou mesmo em meio àquele sertanejo anos 90, que cantava que você é minha luz, estrada, meu caminho, não acreditava mais na música sertaneja.

Em contrapartida, minha família nunca deixou de gostar. Meu pai, inclusive, sempre tem um artista da vez, que sempre toca insistentemente no rádio do seu carro ou no DVD de casa, enquanto ele a limpa. E foi em uma dessas que parei para prestar atenção e descobri uma dupla que mudaria a minha concepção: Victor e Leo.

Muita gente acha estranho, é claro. Sou alguém que gosta de Beatles, ouve música alternativa e vai ao show do Victor e Leo. Ah, tá.

Então, para essas, digo somente: “Eu gosto de MÚSICA. O que me agradar é lucro”.

E descobre-se que os irmãos são pura música. Música vinda diretamente do coração – é o que se exprime nas letras deles. Algumas podem não vir a ser clássicos, mas são puras e singelas, sem muita pretensão. E descobre-se que um dos ídolos do Victor, que toca um violão invejável, é Eric Clapton. Algo que faz lembrar a intenção de se exprimir sentimentos em solos de guitarra. E com sucesso.

A energia presente em um show dos caras é incomparável. Definitivamente não são um One Hit Wonder: O público canta todas as músicas, do começo ao fim – desde uma bem simplezinha que fala do habitat natural dos irmãos até as que os consagraram. Há também um espaço para clássicos do gênero (Ah, vamos, que atire a primeira pedra quem nunca cantarolou Telefone Mudo, nem que seja por brincadeira.), mas eles mesmos não se contentam com a função de bonequinhos do sertanejo atual. São fãs de diversos estilos, e também estão envolvidos na composição, no arranjo e na produção de suas músicas. Estouraram como artistas independentes, tendo sido divulgados no boca-a-boca, e não moldados em uma gravadora para, bem, vender.

Outra coisa muito visível é a educação e a espiritualidade com as quais eles se comportam enquanto artistas. Muito respeito com o público, até quando ele mesmo não o tem. Transmitem seus valores e suas virtudes com a naturalidade de que não estão ali, em cima de um palco, e sim, em um paraíso na Terra.

Mais uma vez, repito que não é preciso escrever pérolas, hinos ou clássicos. Se você tem uma caneta, um coração e um violão, pode ser um grande músico, seja lá qual for o estilo que você escolher, e mudar concepções, como a minha.

Basta mudar seus olhos, e deixar pessoas como o DH, aquele colorido do Cine, falando sozinhas quando dizem: “A gente também fala de amor nas músicas, mas não na linha te amo, quero viver com você pra sempre. A gente diz te amo, quero te pegar na balada hoje”. Música e amor são coisas sérias. E não existe idade pra isso.

sábado, 1 de maio de 2010

O Amor Verdadeiro Não Tem Vista Para o Mar

feito em 26/01/2010

Não há nada mais paulistano do que um céu cinzento. O costume faz amar, por mais caótico que seja... São Paulo é trânsito, chuva e vida agitada. Apesar das tragédias, entra também a poética. E a poética nunca se encaixou tão em em um álbum inteiro como em Tudo Que Eu Sempre Sonhei, dos Pullovers.

Todas as canções são como um coração paulistano em forma de música, definição que me veio à cabeça na primeira audição do álbum completo no TramaVirtual e que me fez barganhar o disco físico em uma promoção do Rock 'n' Beats.

Poetizando várias temáticas, como a vida comum de um paulistano (como em Tudo Que Eu Sempre Sonhei, Marinês e Marcelo ou Eu Traí o Rock) ou até mesmo apologias poéticas à - pasme - chuva paulistana (O Amor Verdadeiro Não Tem Vista para o Mar e Quem me dera houvesse trem), de maneira simples e deliciosa de se escutar, não há como botar defeito.

Indiscutivelmente, o CD por completo é uma pérola da música nacional que, infelizmente, não é conhecida por todos. Em tempos de melodias grudentas com letras esquisitas, ainda temos muito por aí que ainda nos preserva o doce, o belo, a poesia sem precisar de rima forçada. Em tempos de São Paulo caótica, ainda temos quem acredita na beleza oculta desta cidade.

Afinal, o que é São Paulo senão a Londres brasileira? Construções arquitetônicas belíssimas constantemente ignoradas por quem vive a vida com pressa. Pelos carros, inúmeros carros, que passam e acabam com o ânimo da beleza. Mas ainda é cobiçada, almejada, mesmo sem mar. "Que bom", diz a música do Pullovers, "assim se pode amar!".

Mas não gostaria que o ânimo da beleza acabasse. Brasileiro tem mania de ver o defeito - e somente ele - de todas as coisas e ignorar o que ainda existe de bonito por aqui. Quando gostamos de uma pessoa, às vezes ignoramos um pouco seus defeitos. Então pense em São Paulo como uma pessoa. Pense no seu local de origem, seja lá qual ele for, como uma pessoa. Vocês construiram uma história, você gosta de tal coisa especial que só ela tem.

Então se pode gostar do céu cinzento como calmo. Se pode olhar para a Estação da Luz e imaginar que não há nada mais magnífico do que ela. Se pode olhar para a Avenida Paulista e ver o quanto ela cresceu. Se pode amar, sim, algo que todo mundo odeia. E acho que, em amar São Paulo, os Pullovers são experts.


sábado, 24 de abril de 2010

Tchubaruba

Há quase dois meses atrás, me despi de todo e qualquer preconceito que carregava dentro de mim em relação à Mallu Magalhães, o fenômeno teen da música independente brasileira. Não foi preciso muito - apenas alguns segundos de show, talvez - para me convencer de que nem sempre aquilo que todos julgam é, de fato, ruim.

Mallu, antes de tudo, é uma garota que poderia ser, muito bem, alguém como eu. Praticamente regulamos na idade, gostamos de esmaltes verde fosforescente, escrevemos nossas músicas baseadas nas nossas próprias experiências junto ao nosso violão folk e somos tímidas, muito tímidas, mas extrovertidas quando necessário à algumas situações. A linha tênue está no fato de ela ter resolvido colocar as suas músicas no MySpace e, seja lá qual for a verdadeira história por detrás disso, ter ficado famosa, da noite pro dia.

É uma fama merecida. Mallu, realmente, tem talento, e canta com a alma. Mistura influências que vão de Elis Regina a The Strokes. Ganhou maturidade ao longo do tempo, e em seu segundo disco, deve muito disso ao trabalho do produtor Kassin - fato lembrado pelo guitarrista de Mallu, Kadu Abecassis, quando questionado sobre essa tal maturidade. Aos poucos, a figura de menina vai sumindo, e sua relação com o palco já é praticamente íntima.

Os músicos que a acompanham são geniais. Alguns deles, como Abecassis, estão junto à cantora desde o primeiro dia de sua carreira, e é a presença deles que permite, também, a mistura de vários elementos musicais. Durante o show, foram passando pelo palco diversos instrumentos, como gaita, banjo e até mesmo um washboard - que é nada mais nada menos do que uma tábua de esfregar roupa.

É na simplicidade de uma letra como Tchubaruba à complexidade descrita em Compromisso que Mallu se constrói. Em meio ao folk, ao reggae ou ao indie rock, mostra que uma menina de dezessete anos pode - e, até mesmo, deve - fazer muito mais do que sentar e sonhar com seus planos e ambições. Mesmo que cheia de "tanto compromisso, obrigação e sacrifício", transparece a todo momento que ama o que faz, e é de artistas assim, que fazem música com vontade, com amor, que a nossa música brasileira precisa.

BASTIDORES

Inicialmente, eu e a Luiza, que também escreve no Rock 'n' Beats, fomos ao show para conseguir uma entrevista para o site, que pensávamos já estar certa após o contato do Junior com a assessoria de imprensa da FNAC, local no qual se realizou o show. A intenção era focar as perguntas na cena independente e na questão polêmica de Mallu com a Lei Rouanet, já tratada anteriormente pelo Christian. Porém, o produtor de Mallu, Alexandre, impediu-a de dar entrevista.

Tivemos uma rápida conversa com a Mallu, que, por ela, estava intencionada a dar a entrevista, mas o nosso contato maior foi mesmo com Kadu Abecassis, que, uma hora, até se sentou à mesa em que estávamos para tomar a sua cerveja e nos contar sobre as coisas que não podia fazer em palco (como, por exemplo, tomar a sua cerveja) enquanto Mallu não fizesse dezoito anos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

The Beatles - Há 40 anos, Paul McCartney anunciava o fim da banda

texto escrito por mim e postado no Rock 'n' Beats em 10/04/2010

Há exatos quarenta anos, Paul McCartney anunciava o fim definitivo de sua banda. Os Beatles já não existiam mais. Os mesmos Beatles que, outrora, foram definidos por John Lennon em uma entrevista histórica como “mais populares que Jesus Cristo”. Os quatro garotos de Liverpool, cidade inglesa com um grande número de bandas iniciantes, que tiraram a sorte grande após muitos tiros na água. Que conquistaram a América, a TV americana, fator indispensável para lançar-se como um mito. Que conquistaram milhões de garotas -- estas que, histéricas, formavam multidões aonde quer que eles estivessem, devotadas às músicas que diziam tudo o que elas gostariam de ouvir. E, então, acabou. Subiu no telhado, literalmente.

E há quem não entenda tamanho pedestal no qual muita gente os coloca hoje em dia. Talvez seja difícil compreender, mesmo, em uma época na qual muitas coisas já estão ao nosso alcance. Mas, veja só, a contribuição dos Beatles para o mundo da música não é só histórica. Antes de tudo, a banda era composta por quatro músicos geniais, cada um em sua particularidade. Pois bem, John Lennon aprendeu a tocar violão em um banjo. George Harrison era multinstrumentista desde a adolescência, e, sozinho, um compositor incrível.Paul McCartney, antes do baixo, já foi parar até na bateria, e, junto com Lennon, compôs canções tão perfeitas que contribuiram para tornar extremamente difícil superar o nome da banda. Ringo Starr só bateu as baquetas por ali durante oito anos porque era considerado o melhor baterista de Liverpool pelos outros três.

Era tudo por música. Era tudo pelo o que a música realmente representa. Afinal, todas as carreiras solos, até mesmo a de Ringo, que raramente cantava, são brilhantes. Harrison, na sua, por exemplo, lançou All Things Must Pass, considerado pela crítica o melhor álbum solo de um ex-beatle e um dos melhores da história. Lennon, adepto do movimento paz–e-amor, escreveu o hino Imagine.

Rubber Soul
, o álbum de 1965, se fortaleceu musicalmente de tal maneira que acabou enlouquecendo um sujeito chamado Brian Wilson, quando este resolveu tentar superar tamanha perfeição no incrível Pet Sounds, de seu Beach Boys, e os rapazes lhe responderam com Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, um álbum conceitual, cuja existência revolucionou – e muito – o jeito de se fazer uma gravação. Sem ele, muita gente talvez não estaria fazendo os seus álbuns da mesma maneira que faz hoje.

Poderiamos citar por séculos tudo o que os Beatles proporcionaram. As composições adequadas para todas as fases pelas quais eles passaram – do deslumbramento adolescente à cultura hippie e a Guerra do Vietnã. Todas as fusões, harmonias e melodias, ou, até mesmo, as contribuições chamadas “ruins”, como o fanatismo exacerbado e o marketing invasivo.

Isso tudo é genérico. Partindo de um lado pessoal, acho extremamente incrível o modo com o qual sou fascinada pela música e história de tal banda, afinal, nasci bem longe de tudo isso. Bem depois de John Lennon ser morto. Em tempo de compreender o que significava aquela notícia em 2001, quando George Harrison faleceu. É inexplicável. Tem que ser muito bom para, depois de quarenta anos fora da atividade musical, ser lembrado em algum canto do mundo todos os dias e ainda conquistar fãs. Tem que fazer música, música de verdade, para ela nunca sumir do mundo junto de uma onda. É justo colocá-los em um pedestal, e mais justo ainda é nunca tirá-los de cima dele.

Lembro ainda que hoje também faz quarenta e oito anos que alguém muito especial para eles faleceu preocemente. Stuart Sutcliffe era o quinto membro da banda, quando Pete Best ainda era o baterista e toda a fama e grandiosidade dos rapazes estava limitada a um bar em Hamburgo, na Alemanha. Conheceu John Lennon na Escola de Arte de Liverpool. Eles eram tão amigos que, quando conseguiu vender o seu primeiro quadro, Stuart comprou um baixo -- mesmo sem saber tocar -- para integrar a banda de John. Porém, ele não chegou a ver o sucesso: abandonou os Beatles um ano antes de sua morte, para continuar os seus estudos de arte. Aos 21 anos, foi vitima de uma hemorragia cerebral.