
Como uma dupla sertaneja conquistou o meu coração
Ainda existem pessoas que tenham nascido com outros olhos. Olhos com uma visão de um mundo que ainda pode ser melhor, mesmo que em um pedacinho de terra. Uma visão de que existem grandes paixões, e não a banalização do sexo, que está presente diariamente em músicas repetitivas nas rádios, em comerciais de televisão, na pessoa que está conversando logo ali, próxima a você. Ainda existem pessoas de verdade.
Chamam de louco quem ainda gosta de músicas de amor. Pois bem, sou louca então. Não é muito agradável escutar por aí músicas que não exprimem sentimentos de verdade. Músicas que são feitas somente para tocar massivamente e vender.
Então, chegamos à linha tênue. A música sertaneja atual é basicamente feita disso. Bar, beber, zoar, comer, cheia de cacófatos e showzinhos à parte. Então, é lógico, rola um pré-conceito. Eu, mesmo tendo crescido em meio à música de raiz, ou mesmo em meio àquele sertanejo anos 90, que cantava que você é minha luz, estrada, meu caminho, não acreditava mais na música sertaneja.
Em contrapartida, minha família nunca deixou de gostar. Meu pai, inclusive, sempre tem um artista da vez, que sempre toca insistentemente no rádio do seu carro ou no DVD de casa, enquanto ele a limpa. E foi em uma dessas que parei para prestar atenção e descobri uma dupla que mudaria a minha concepção: Victor e Leo.
Muita gente acha estranho, é claro. Sou alguém que gosta de Beatles, ouve música alternativa e vai ao show do Victor e Leo. Ah, tá.
Então, para essas, digo somente: “Eu gosto de MÚSICA. O que me agradar é lucro”.
E descobre-se que os irmãos são pura música. Música vinda diretamente do coração – é o que se exprime nas letras deles. Algumas podem não vir a ser clássicos, mas são puras e singelas, sem muita pretensão. E descobre-se que um dos ídolos do Victor, que toca um violão invejável, é Eric Clapton. Algo que faz lembrar a intenção de se exprimir sentimentos em solos de guitarra. E com sucesso.
A energia presente em um show dos caras é incomparável. Definitivamente não são um One Hit Wonder: O público canta todas as músicas, do começo ao fim – desde uma bem simplezinha que fala do habitat natural dos irmãos até as que os consagraram. Há também um espaço para clássicos do gênero (Ah, vamos, que atire a primeira pedra quem nunca cantarolou Telefone Mudo, nem que seja por brincadeira.), mas eles mesmos não se contentam com a função de bonequinhos do sertanejo atual. São fãs de diversos estilos, e também estão envolvidos na composição, no arranjo e na produção de suas músicas. Estouraram como artistas independentes, tendo sido divulgados no boca-a-boca, e não moldados em uma gravadora para, bem, vender.
Outra coisa muito visível é a educação e a espiritualidade com as quais eles se comportam enquanto artistas. Muito respeito com o público, até quando ele mesmo não o tem. Transmitem seus valores e suas virtudes com a naturalidade de que não estão ali, em cima de um palco, e sim, em um paraíso na Terra.
Mais uma vez, repito que não é preciso escrever pérolas, hinos ou clássicos. Se você tem uma caneta, um coração e um violão, pode ser um grande músico, seja lá qual for o estilo que você escolher, e mudar concepções, como a minha.
Basta mudar seus olhos, e deixar pessoas como o DH, aquele colorido do Cine, falando sozinhas quando dizem: “A gente também fala de amor nas músicas, mas não na linha te amo, quero viver com você pra sempre. A gente diz te amo, quero te pegar na balada hoje”. Música e amor são coisas sérias. E não existe idade pra isso.
